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RH + ARQUITECTOS

Espaço do arquiteto com o atelier RH+ Arquitectos


Em 2007, - cientes das semelhanças na forma de encarrar a conceção arquitetónica, aliadas à vontade de explorar os seus próprios conceitos e projetos -, Roberto Castro (Funchal, 1980) e Hugo Jesus (Funchal, 1978), que iniciaram a sua prática profissional noutros ateliês, formam o seu próprio gabinete: “RH+ Arquitectos”. Os programas e as escalas de intervenção variam, e é desta variação e da singularidade de cada projeto, que surge a riqueza das suas propostas.

Quais os maiores desafios na concepção do Projecto?


O lugar escolhido para a construção do “Saccharum Resort” foi o principal desafio deste projeto, trabalhado sobre diferentes ângulos. As características físicas do local, nomeadamente o forte contraste entre a irregularidade e elevação das montanhas e a extensão e misticismo do oceano, foram determinantes para a definição da solução, que se apresenta em simbiose com estes elementos. A conceção do edifício teve ainda em consideração o facto de se tratar de um sítio de forte presença visual, surgindo como uma peça fundamental no remate da marginal da Vila da Calheta (Ilha da Madeira). Não menos importante foi o peso histórico da área a intervir, onde existiu em tempos um engenho de transformação da cana sacarina. Esta memória industrial, por ter um forte relevo para esta localidade e para o seu desenvolvimento, foi recuperada e transposta para o conceito do hotel.
Embora a hotelaria tenha uma forte expressão no arquipélago da Madeira, esta unidade apresentou-se como a primeira na categoria de cinco estrelas a ser construída fora do concelho do Funchal. Tal facto, foi uma premissa determinante para a abordagem do programa, apostando-se por isso num elemento diferenciador, na ótica dos “boutique hotels”. Assim, além de ter se ter tido um especial cuidado na personalização dos elementos decorativos, o próprio conjunto edificado do Resort, é ele também uma peça de design, que se serve de uma linguagem arquitetónica contemporânea para se relacionar com a paisagem, incorporando-a, tornando-se um elemento intrínseco da mesma.

Como classifica a utilização do tijolo face à vista na arquitetura nacional?

A utilização do tijolo de face à vista na arquitetura nacional, no nosso entender, surge na sequência de um legado industrial da produção deste material de construção, e na posterior valorização das suas caraterísticas físicas, primeiramente em espaços de cariz mais funcional, que não requeriam um tratamento ou acabamento estético tão cuidado. Gradualmente, a perceção de aspetos como a textura do próprio material, e a sua forma de aplicação, foram também valorizados do ponto de vista estético, uma vez que imprimem uma imagem muito própria aos edifícios.

Porquê a escolha do tijolo de face à vista?


A escolha do tijolo face à vista teve que ver, por um lado, com as suas características visuais, e pelo tipo de ambiente que se pretendia para este Hotel. A expressão mais brutalista deste material, e nesse sentido mais pura, remete para um ambiente industrial, que era algo que se queria destacar neste projeto, numa perspetiva de conservação dos valores históricos e culturais do local.
Por outro lado, em termos mais técnica, a proximidade ao mar e as suas implicações no que se refere à manutenção e conservação do edificado foram relevantes para se optar por este material, sobretudo pela sua resistência ao ambiente marítimo.

Qual é o conceito do projeto?

O projeto é marcado pelo compromisso com o lugar. O objeto arquitetónico implanta-se na escarpa sobranceira à costa, assumindo a sua linguagem estética, fator que se revelou um desafio de ordem técnica, mas de forte expressão paisagística.
Face a esta envolvente e ao seu ambiente ruralizado, o corpo do hotel adota uma configuração irregular, inspirada nos tradicionais socalcos madeirenses. Tal como nos socalcos - em que a topografia é moldada por meio de muros que criam platôs para produção agrícola, ao longo das encostas -, concetualmente procurou-se mimetizar esta prática na definição dos vários níveis em que se desenvolve o hotel, almejando diluir a sua presença, tornando-o parte da própria montanha. Este conceito corporiza-se através de uma volumetria desconstruída em lâminas de betão aparente - separadas por panos de tijolo e vidro -, num jogo de avanços e recuos face às formações rochosas, tanto em extensão como em altura, moldando-se à topografia do local.

A integração de elementos vegetais na cobertura e canteiros teve também especial relevância nesta estratégia de integração paisagística, trazendo à memória, uma vez mais, a paisagem criada pelos socalcos. O hotel de cinco estrelas, com 181 quartos, ocupa uma área de 11 610m2, dos quais 6720.00m2 são espaços verdes.
O projeto assenta no conceito “boutique hotel”, contemplando amplos espaços abertos e vistas desafogadas sobre o mar, procurando criar um espaço sofisticado com uma estreita ligação com a riqueza natural, assente na dicotomia mar/montanha.
O programa complementa a oferta de alojamento com duas piscinas exteriores, duas piscinas interiores, Spa e fitness club, dois restaurantes, bar panorâmico, uma sala reservada a eventos e dois auditórios. Como área complementar foi também previsto um espaço museológico, dedicado à tradição sacarina, em jeito de homenagem ilustrativa daquele que é o mote do hotel, aproveitando-se, e valorizando-se peças do antigo engenho que ali funcionou em tempos.

Porquê da escolha da cor Castanho Quito?

A opção pelo tijolo Klinker, Castanho Quito, não teve que ver só com uma questão cromática. Se por um lado a cor se aproximava das tonalidades da montanha, e, por assim ser, permitir um melhor enquadramento no ambiente envolvente, por outro o facto de não se apresentar como uma peça de faces puras, do ponto de vista geométrico, teve igual peso enquanto opção. Não só a cor, como também a textura do tijolo Castanho Quito, aproximam-se deste impactante elemento paisagístico, de contornos imprevisíveis, irregulares, como se fossem componentes desta formação rochosa.